Agronegócio

Assassinatos no campo caem de 27 para 6 e conflitos sobem, diz CPT

Levantamento parcial da entidade aponta 841 conflitos no primeiro semestre; ocupações e acampamentos recuaram de 66 para 48

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou seis assassinatos em conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, contra 27 no mesmo período do ano passado, segundo levantamento divulgado em 2 de setembro. No mesmo intervalo, o número de conflitos subiu de 798 para 841.

Os dados são parciais e cobrem janeiro a junho. O relatório anual da entidade, que está na 40ª edição, foi lançado em 27 de abril e trata do ano-base 2025. A consolidação de 2026 só sai em 2027.

Das seis mortes, uma foi um massacre com três vítimas posseiras em Lábrea, no Amazonas. As outras vítimas foram dois indígenas, em Roraima e no Mato Grosso do Sul, e um trabalhador rural sem-terra. Tinham entre 14 e 45 anos. A CPT contabiliza ainda 588 casos e 497 vítimas de violência contra a pessoa, número maior que o do ano anterior.

O que diz o levantamento

Os 841 conflitos se dividem em três eixos: terra, com 711 registros; água, com 100; e trabalho escravo rural, com 30 ocorrências. Dentro do eixo terra, as violências ligadas à ocupação e à posse passaram de 584 para 663.

Pela contagem da própria entidade, o que caiu foi a ação dos movimentos: ocupações e acampamentos recuaram de 66 para 48, movimento que a CPT descreve como tendência dos últimos dez anos. Os conflitos por água mais que dobraram, de 47 para 100 registros, em 20 estados, com o Pará à frente, seguido de Minas Gerais, Amazonas e Mato Grosso.

O Maranhão lidera em conflitos no campo, com 156 no semestre, seguido de Pará (90), Bahia (85) e Rondônia e Amazonas, com 63 cada. A Amazônia Legal concentra 446 dos 841 casos e cinco dos seis assassinatos.

A queda no trabalho escravo rural é relativizada pela própria CPT. A entidade afirma que a diminuição das 30 ocorrências e dos 355 resgatados pode estar relacionada ao atraso no fornecimento de dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho, sua principal fonte nesse eixo.

Como a CPT conta um conflito

A metodologia está declarada no documento. Os levantamentos são feitos com base em coleta dos agentes da entidade em todo o país, em clipagem junto à imprensa em geral, em divulgações de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.

A definição de conflito é mais ampla que a de violência. Segundo o texto, o conceito de conflito para a CPT não é sinônimo de violência e compreende um contexto de disputa que inclui as violências sofridas e também as ações de resistência e enfrentamento. Na prática, uma ocupação promovida por movimento social entra no mesmo total em que entram assassinatos e contaminação por agrotóxico.

O peso de episódios isolados também aparece. No recorte da Amazônia Legal, publicado em 4 de setembro, 195 registros de contaminação por minério vieram de um único caso, em Jacareacanga, no Pará, ligado a garimpo ilegal de ouro no rio Tapajós, na terra indígena Munduruku.

Há uma divergência entre as duas publicações da entidade. O levantamento parcial usa 27 assassinatos no primeiro semestre de 2025 como base de comparação, enquanto o relatório anual de abril registra 26 assassinatos em todo o ano de 2025. A CPT não explicou o critério em nenhum dos dois textos.

Os números são da CPT, organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e não são estatística oficial do Estado. Não há série pública equivalente da Ouvidoria Agrária Nacional nem do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Em 17 de agosto, o Conselho Nacional de Justiça e o Incra assinaram acordo para integrar dados territoriais ao sistema SireneJud, com o objetivo de informar decisões judiciais sobre posse.

Do lado do produtor, a contagem é outra. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) registrou 41 invasões de propriedades rurais até junho de 2026, sendo 38 atribuídas a movimentos sociais e três a grupos indígenas, com Pernambuco à frente, com 12 casos. De 2023 a abril deste ano, foram 241 registros. Os dois levantamentos medem objetos diferentes e não se somam: a CNA conta invasão de propriedade privada validada por federação e sindicato, e a CPT conta ocorrências de violência e de resistência.

CNA, Frente Parlamentar da Agropecuária, Incra e Ministério do Desenvolvimento Agrário não se manifestaram publicamente sobre o levantamento até esta quinta-feira (10).

Leia também sobre o relatório do Cimi com 258 indígenas assassinados em 2025 e sobre a operação da PF contra o ouro ilegal em terra indígena.

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