Segurança

Gasto dos estados com polícias é 5.423 vezes o de políticas para egressos

Estudo do centro de pesquisa Justa aponta R$ 103,5 bilhões em polícias e R$ 19 milhões em egressos em 2025

Os estados brasileiros gastaram R$ 103,5 bilhões com as polícias em 2025 e R$ 19 milhões com políticas para egressos do sistema prisional, uma diferença de 5.423 vezes, segundo estudo do centro de pesquisa Justa apresentado no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado nesta quinta-feira, 17, pela Agência Brasil.

O levantamento, batizado de "O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros", acompanha o caminho do dinheiro público desde o policiamento até a saída da prisão. Entre os três elos, o sistema prisional aparece no meio, com R$ 22,3 bilhões no ano passado.

A conta indica que, para cada R$ 1 aplicado em quem deixa a cadeia, os governos estaduais aplicaram R$ 5.423 em policiamento. O estudo cobre 26 unidades da Federação. O Acre não enviou dados.

A comparação com 2024 mostra que a distância aumentou. Naquele ano, as polícias consumiram R$ 87,5 bilhões, o sistema prisional R$ 21,9 bilhões e as políticas para egressos R$ 18 milhões. O gasto policial cresceu cerca de 18% em um ano; o destinado a egressos subiu R$ 1 milhão.

Sete estados investiram em egressos

Dos 26 estados analisados, apenas sete registraram despesa com políticas voltadas a quem cumpriu pena:

  • São Paulo: R$ 13,3 milhões
  • Ceará: R$ 3,8 milhões
  • Mato Grosso: R$ 781 mil
  • Bahia: R$ 482 mil
  • Rio Grande do Sul: R$ 414 mil
  • Santa Catarina: R$ 177 mil
  • Sergipe: R$ 19 mil

São Paulo responde sozinho por 70% de tudo o que os estados gastaram no item. Os outros 19 entes que enviaram dados não registraram despesa alguma na rubrica.

O que dizem as pesquisadoras

Para a coordenadora de pesquisas do Justa, Taciana Santos, o avanço da despesa policial tem origem política.

"Esse crescimento de gasto com polícias está associado ao crescimento da bancada da bala"

A leitura é da pesquisadora e não decorre de medição feita pelo próprio levantamento, que trata de execução orçamentária estadual.

A diretora-executiva do Justa, Luciana Zaffalon, associou o desenho do gasto ao tamanho da população prisional.

"É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa"

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que sediou a apresentação, e as secretarias estaduais de segurança e de administração penitenciária não divulgaram manifestação sobre os números até a publicação desta reportagem.

O dado tem efeito prático na conta pública. A reincidência devolve ao sistema prisional gente que já custou vaga, alimentação, escolta e vigilância, e o gasto volta a aparecer na rubrica de R$ 22,3 bilhões. É esse retorno que a linha de R$ 19 milhões se propõe a evitar.

O centro de pesquisa Justa vem publicando levantamentos sobre o orçamento do sistema de Justiça. Em agosto, a entidade apontou que 24 de 25 tribunais brasileiros têm proporção de juízas menor que a de mulheres na população.

Os números de 2025 saem no mesmo momento em que o Congresso discute a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, que trata da divisão de atribuições entre União, estados e municípios. O estudo do Justa não avalia a proposta.

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