Nepal tem 917 trabalhadores desaparecidos em hidrelétricas
É o 16º dia de buscas em Rasuwa e Nuwakot; a contagem da associação do setor supera a dos registros oficiais
O governo do Nepal informou nesta quinta-feira, 10, que o número de pessoas presas dentro dos túneis das hidrelétricas atingidas pela enchente do rio Bhote Koshi permanece não verificado. É o 16º dia de buscas nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, e a associação das empresas do setor sustenta uma contagem própria, maior que a dos registros oficiais.
O boletim diário do Ministério das Relações Exteriores do Nepal, atualizado às 14h no horário local, contabiliza 1.377 corpos recuperados, 5.130 desaparecidos e 13.656 pessoas resgatadas. Cerca de 600 dos desaparecidos são estrangeiros, de 35 países. Os números são apenas do lado nepalês.
A Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal, a IPPAN, divulgou em 9 de setembro que 917 trabalhadores seguem desaparecidos em 11 dos 12 projetos hidrelétricos atingidos. O maior grupo está no Upper Trishuli-1, de 216 megawatts: havia 1.433 pessoas no canteiro antes da enxurrada e 878 foram resgatadas, restando 546 desaparecidas, entre elas 34 chineses, 50 indianos e 9 sul-coreanos. Os registros do governo apontavam 639 desaparecidos ligados a hidrelétricas, segundo levantamento publicado pelo site ambiental Mongabay.
Desde o início das operações, apenas três pessoas foram resgatadas vivas de dentro dos túneis: dois nepaleses no Upper Trishuli 3A, em 4 de setembro, e um chinês no Upper Trishuli 1, no dia 5.
Por que as buscas nos túneis não avançam
O obstáculo é logístico. No projeto Chilime, cerca de 90 metros do túnel de acesso estão tomados por lama e água, removidos manualmente porque a escavadeira de três toneladas está desmontada na cidade de Battar e não há estrada para levá-la. No Upper Trishuli-1, tentativas de transportar miniescavadeiras de helicóptero fracassaram por falta de área de pouso.
Fomos derrotados pelo próprio terreno.
A frase é de Narnath Neupane, secretário da empresa responsável pelo projeto Rasuwagadhi, ao jornal Kathmandu Post. As buscas no Langtang Khola e no Upper Trishuli-3A foram encerradas depois que o Exército e a Força Policial Armada varreram as áreas.
Participam das operações a autoridade nacional de gestão de desastres, o Exército do Nepal, a Polícia do Nepal e a Força Policial Armada, com 21.402 agentes mobilizados no balanço de 8 de setembro. Equipes de resgate em túnel da Índia, da China e da Coreia do Sul trabalham em coordenação com o Exército nepalês, e há apoio de equipes dos Emirados Árabes Unidos, da Malásia e da Austrália.
O custo e o efeito sobre a energia do país
A avaliação de danos e necessidades divulgada pelo governo em 10 de setembro estima em 723,31 bilhões de rupias nepalesas o custo da reconstrução. O relatório contabiliza 13 projetos hidrelétricos danificados, somando 759 megawatts, além de 69 quilômetros de estradas, 33 pontes carroçáveis levadas pela água e 7.570 casas atingidas. Cerca de 1,6 milhão de pessoas foram afetadas.
A perda equivale a cerca de 10% da capacidade instalada do país fora da rede. O momento agrava o efeito: no ano fiscal encerrado em meados de julho, o Nepal se tornou exportador líquido de eletricidade pela primeira vez em quase uma década, com receita de 18,75 bilhões de rupias em vendas à Índia e a Bangladesh, segundo relatório da estatal Nepal Electricity Authority. Com a vazão dos rios caindo no inverno e a demanda no pico, a expectativa é de retorno à importação.
O padrão de destruição já produziu um diagnóstico técnico. As casas de força construídas na superfície e as barragens junto ao leito foram destruídas, enquanto as usinas mais novas, com casa de força subterrânea, resistiram. O projeto Super Trishuli, de 100 megawatts, passou quase ileso por ter sido construído afastado do rio e com estudo prévio de probabilidade de cheia. O reforço de engenharia encarece as obras entre 10% e 12%.
O desastre começou em 26 de agosto, com o colapso de uma geleira na área do Langtang Lirung, na fronteira com o Tibete, que gerou enxurradas e fluxos de detritos ao longo de 72 quilômetros do rio Trishuli. Sismômetros registraram um tremor de magnitude 5,2, consequência do colapso e não sua causa. O governo nepalês mantém a apuração das causas em aberto.
O Itamaraty informou em nota que as embaixadas do Brasil em Katmandu e em Pequim acompanham os desdobramentos e que não há registro de brasileiros entre as vítimas. A nota tem última atualização em 2 de setembro.