Eleições 2026

Derrubar canal do WhatsApp com 3,3 milhões limita mobilização, dizem especialistas

Decisão de Kassio Nunes Marques, revertida horas depois pelo corregedor, foi chamada de desproporcional por especialistas em direito digital

Neste texto4 tópicos
  1. O que dizem os especialistas
  2. A repercussão na campanha
  3. O que Kassio escreveu
  4. Próximo passo

A decisão de derrubar o canal "Exército do Lula" no WhatsApp, que reunia 3,3 milhões de pessoas, limita a mobilização de eleitores no segundo turno e vai além do combate à desinformação, avaliam especialistas em direito digital ouvidos pela Agência Brasil neste domingo, 11. A ordem partiu do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, e foi revertida horas depois pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Vilas Bôas Cuêva, que levou o caso ao plenário.

O que dizem os especialistas

A gerente de políticas públicas da organização de direitos humanos Witness, Bruna Santos, classificou a decisão como "desproporcional" e diferente de outros entendimentos da Corte. Para ela, o mais adequado seria pedir a exclusão do conteúdo considerado falso, não a do canal inteiro. "Me parece mais uma tentativa de diminuir o alcance da campanha do presidente Lula às vésperas do segundo turno", afirmou.

Henrique Sampaio, coordenador de redes sociais da CTRL+Z, organização que monitora as big techs, disse que o rótulo "fake news" não pode servir de justificativa genérica para suprimir um espaço de organização legítimo durante a eleição. Mesmo que houvesse infrações pontuais, na avaliação dele, caberiam medidas menos abrangentes, como a remoção de publicações específicas. Sampaio também pediu que se esclareça se os mesmos critérios valem para grupos bolsonaristas, que "sempre se mobilizaram dessa forma em múltiplas plataformas".

A repercussão na campanha

O canal foi criado no segundo turno pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Lula chamou a decisão de "intromissão indevida da Justiça Eleitoral" e Janones falou em "censura". A campanha de Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, pede aos apoiadores que "combatam as fake news da esquerda", segundo a agência.

O que Kassio escreveu

Na decisão, Nunes Marques cita publicações de Janones feitas antes do primeiro turno que considera "sabidamente inverídicas" e descreve o canal como uma estrutura de "soldados" que executam o que lhes é ordenado, convertida em "vetor de disseminação, em escala nacional, de conteúdos que esta Corte já reconheceu como desprovidos de lastro mínimo".

Uma das postagens questionadas aponta suposto vínculo de Flávio Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. O ministro afirmou que a imputação de que o candidato seria "bandido" e teria envolvimento com milícia "desborda, em juízo preliminar, os limites da crítica política regular". Os adversários de Flávio apontam, entre outros elementos, a relação dele com Adriano da Nóbrega, apontado como ex-chefe do Escritório do Crime; como deputado estadual, Flávio o homenageou e empregou dois parentes dele no gabinete, informa a agência.

O presidente do TSE defendeu a medida como adequada e proporcional. "A remoção mensagem a mensagem não protege o eleitor nesse ambiente", escreveu, explicando que a atualização chega a mais de três milhões de aparelhos no instante em que é publicada e é apagada pelo administrador depois de cumprida a "missão". Segundo ele, ordens anteriores contra Janones foram cumpridas nas plataformas onde os vídeos estavam hospedados, mas o canal seguiu distribuindo os mesmos conteúdos.

Janones nega a disseminação de notícias falsas.

Próximo passo

Com a decisão do corregedor, o caso vai ao plenário do TSE. O Resenhando já noticiou a derrubada da suspensão pelo corregedor; esta matéria traz a avaliação de especialistas sobre o mérito.

Fonte: Agência Brasil, 11/10/2026.