Aneel diz ao TSE que El Niño não põe em risco a energia na eleição
Agência comunicou planos de contingência ao tribunal; projeção é de 95% de chance de fenômeno muito forte
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) comunicou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os planos de contingência preparados por geradoras, distribuidoras e transmissoras para conter os efeitos do El Niño sobre o fornecimento de energia durante a eleição de 4 de outubro. A comunicação foi feita em 20 de agosto.
O diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, afirmou não ver risco ao abastecimento no período eleitoral. A mobilização foi acionada diante da projeção de 95% de probabilidade de o fenômeno climático ocorrer com intensidade "muito forte" entre outubro e dezembro deste ano.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), dirigido por Márcio Rea, montará operação especial nos dias de votação.
As declarações foram feitas no evento "Super El Niño e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro", realizado em 20 de agosto na sede da agência, em Brasília. O encontro reuniu especialistas, representantes do governo, agentes do setor elétrico e pesquisadores para discutir os efeitos de eventos climáticos extremos sobre o Sistema Interligado Nacional.
O que a agência prepara
O ponto mais sensível está nos sistemas isolados da Amazônia Legal e da Região Norte, onde a geração depende de usinas térmicas abastecidas por combustível transportado em rios. A queda no nível das águas pode travar essa logística justamente no período da eleição.
Três empresas responsáveis pela geração em áreas isoladas do Amazonas pediram à Aneel a antecipação de recursos para comprar e estocar combustível. "Pode haver problemas de tráfego nos rios em função da baixa pluviosidade e nós vamos antecipar recursos para que essas empresas comprem os combustíveis, deixem estocados", disse Feitosa.
A antecipação de recursos a geradoras isoladas é bancada pela Conta de Consumo de Combustíveis, encargo que aparece na fatura de energia de todo o país. O consumidor do Sudeste paga, na conta de luz, parte do combustível queimado em usinas do Norte.
Eleição e energia
A coordenação com o TSE busca evitar que falta de combustível ou interrupção no fornecimento comprometa a votação em 4 de outubro. As urnas eletrônicas funcionam com bateria interna, mas a apuração, a transmissão de dados e a estrutura dos locais de votação dependem de energia.
Não há, até o momento, valor divulgado para o pacote de antecipação nem estimativa de impacto na tarifa. A Aneel também não informou se haverá acionamento adicional de térmicas no sistema interligado, decisão que costuma pressionar a bandeira tarifária.
Quem paga a conta da prevenção
A antecipação de recursos não cria dinheiro novo: adianta desembolso de um encargo já embutido na tarifa. Quando a hidrologia piora e o país precisa recorrer a térmicas, o custo aparece na fatura, pela bandeira tarifária, ou nos encargos setoriais, cobrados de todo consumidor conectado à rede.
Em 11 de agosto, a própria agência já havia homologado repasse preliminar de R$ 5,48 bilhões a distribuidoras do Norte e do Nordeste para conter tarifa. Cada medida emergencial adotada agora entra na conta que será rateada nos próximos ciclos tarifários.
O alerta de El Niño de intensidade forte para o segundo semestre já havia sido emitido pela Organização Meteorológica Mundial. O Distrito Federal e outras regiões do Centro-Oeste entraram em agosto com registro elevado de incêndios em vegetação, outro efeito do tempo seco que pressiona linhas de transmissão e subestações.