Siderurgia relata 5 mil demissões e entrada de aço chinês pelo Mercosul
Debatedores na Comissão de Trabalho dizem que o produto contorna as taxas via países vizinhos; Instituto Aço Brasil contabiliza 5,7 milhões de toneladas importadas em 2025
Representantes de trabalhadores e de indústrias do setor siderúrgico afirmaram a deputados que o avanço das importações de aço chinês ameaça a operação das metalúrgicas brasileiras, em audiência pública da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados realizada na terça-feira, 1º de setembro, em Brasília.
O debate foi requerido pelo deputado Max Lemos (União-RJ), que anunciou a intenção de levar o assunto a ministros de Estado depois do período eleitoral.
Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, Odair Mariano da Silva, o produto chinês chega ao país por rotas indiretas. “O aço entra pelos países do Mercosul para aproveitar o livre-comércio do bloco. Não há barreira nem fiscalização para conter essa entrada”, afirmou. Ele disse que a categoria registrou 5 mil demissões em 2025.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias, Jairo Rodrigues da Silva, o problema começa na exportação de matéria-prima. “O Brasil exporta o minério de ferro bruto e o compra de volta industrializado, por um valor até 40% menor do que o produto nacional”, declarou.
O presidente da Associação dos Processadores de Aço (Aproaço), Haroldo Cruz Filho, citou o caso de Pinheiral, no Rio de Janeiro. De acordo com ele, a cidade depende da fabricação de folha de flandres, o aço revestido de estanho, para 90% da receita, e a arrecadação municipal caiu 30% em dois anos com a chegada do produto importado, inclusive pela Zona Franca de Manaus. “Países vizinhos importam o aço chinês e vendem produtos prontos para o Brasil, como latas de tinta e aerossóis”, disse.
Os números do setor e do comércio exterior
O levantamento apresentado na audiência aponta 215 mil metalúrgicos em atividade em 2,3 mil indústrias, com média de idade de 40 anos e salário médio de R$ 3,5 mil.
Fora do debate na Câmara, o Instituto Aço Brasil contabilizou 5,7 milhões de toneladas de laminados importados em 2025, alta de 20,5% e maior volume em 15 anos. A entidade calcula que a penetração de importados no mercado interno chegou a 21%, ante média histórica de 9,7%, e atribui a essa pressão o fechamento de 5 mil vagas e o corte de R$ 2,5 bilhões em investimentos. Pelos dados do instituto, a China responde por 64% do aço importado pelo Brasil. Na base Comtrade, da Organização das Nações Unidas, o país importou US$ 2,79 bilhões em ferro e aço de origem chinesa no ano passado.
O quadro de 2026 mudou. As importações de produtos de aço caíram 17,6% no primeiro semestre e somaram 2,9 milhões de toneladas, segundo balanço do Instituto Aço Brasil divulgado em julho.
As barreiras em vigor e os próximos passos
O país aplica hoje dois instrumentos contra o aço importado. O Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) criou em abril de 2024 o regime de cota-tarifa, que eleva a 25% o imposto de importação quando o volume ultrapassa um teto anual. A medida começou com 11 códigos da nomenclatura do Mercosul, passou a 23 em maio de 2025 e vem sendo renovada por períodos de 12 meses. Em fevereiro deste ano, de acordo com a Agência Câmara, a Camex fixou taxas antidumping para produtos chineses como laminados planos a frio e aços revestidos.
O representante do Ministério do Trabalho e Emprego na audiência, Alexandre Furtado Scarpelli, afirmou que a indústria brasileira em geral mostra reação, mas que o setor siderúrgico continua estagnado. Foi a única manifestação do governo federal registrada no encontro.
A mesa reuniu produtores, trabalhadores e o Ministério do Trabalho. Nenhum representante dos setores que compram aço, como construção civil, bens de capital e distribuição, participou para apresentar o argumento oposto, o de que a barreira tarifária encarece o insumo e chega ao preço final. Quanto a proteção custa a quem compra aço não foi calculado na audiência.
Max Lemos anunciou o passo seguinte. “Vou apresentar requerimentos de informação à Receita Federal e a outros órgãos para aprofundar os dados. Também convidaremos ministros de Estado para retomar o debate logo após o período eleitoral”, declarou.
A disputa comercial brasileira em outras frentes segue aberta. Em agosto, o governo abriu processo de reciprocidade contra as tarifas dos Estados Unidos, também na Camex.