Eleições 2026

Curso técnico e ônibus lideram as cobranças de moradores de favela no Rio

Reportagem da Agência Brasil ouviu moradores de comunidades cariocas sobre o que pretendem cobrar dos candidatos em outubro

Cursos técnicos, linhas de ônibus que saiam da comunidade e emprego formal encabeçam a lista de cobranças que moradores de favelas do Rio de Janeiro pretendem levar às urnas em outubro. O levantamento de demandas foi publicado em 10 de setembro pela Agência Brasil, que ouviu moradores de comunidades da capital fluminense.

Não se trata de pesquisa eleitoral registrada: a reportagem reúne relatos individuais e dados oficiais, sem instituto, amostra ou margem de erro. O peso do eleitorado, porém, está medido. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, 2,1 milhões de pessoas vivem em 1.724 favelas no estado do Rio de Janeiro. Só na capital são 1,3 milhão de moradores distribuídos em 813 comunidades.

No recorte racial da cidade, o mesmo Censo aponta que 21% dos moradores de favelas se declaram pretos e 49%, pardos.

O Censo de 2022 foi o primeiro a adotar a expressão "favelas e comunidades urbanas" para o que até então o IBGE chamava de aglomerado subnormal, e também o primeiro a mapear esses territórios com delimitação própria. A mudança tem efeito prático na disputa por recurso público: área delimitada e população contada viram base de cálculo para repasse e para planejamento de serviço.

As demandas que aparecem nos relatos

A educação técnica é o item mais citado. Os jovens ouvidos pedem mais cursos profissionalizantes e projetos esportivos, e criticam iniciativas que começam e são interrompidas antes de concluir uma turma. A queixa não é de ausência de programa, e sim de descontinuidade.

O transporte aparece logo em seguida, ligado diretamente ao acesso a trabalho e a lazer. Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, moradora do Complexo do Alemão, resumiu o problema à reportagem.

Você não tem um ônibus que saia do Alemão ou de qualquer favela da zona norte para zona sul.

No campo do trabalho, as propostas de fim da escala 6x1 foram apontadas como prioridade pelos entrevistados, que também criticam o valor pago no programa Jovem Aprendiz. Na saúde, o pesquisador Hugo Oliveira, morador do Morro da Providência, associa a dificuldade de acesso a serviços ao racismo estrutural.

Na segurança, o padrão dos relatos contraria o discurso de campanha mais comum sobre o tema. Os entrevistados colocam educação, esporte e saúde à frente do policiamento intensivo. Bruno Rafael Castilho Alves, de 46 anos, ex-morador da Cidade de Deus, critica candidatos que, segundo ele, exaltam a morte e o confronto.

O alerta sobre intermediação política

A professora Eblin Farage, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE), afirma que não há na história do Rio de Janeiro política de segurança pública bem-sucedida que tenha tomado o morador como referência.

Ela também faz uma ressalva sobre a organização local: organizações não governamentais com atuação político-partidária dentro das comunidades tendem a reproduzir clientelismo e a fragmentar a mobilização por direitos, em vez de fortalecê-la.

A distância entre a pauta relatada e a pauta de campanha é o ponto prático. Nenhuma das demandas citadas depende de obra nova ou de anúncio de grande porte. Curso técnico, linha de ônibus e vaga formal de trabalho são serviços de execução municipal e estadual, mensuráveis por turma concluída, por itinerário criado e por carteira assinada.

O eleitor fluminense escolhe em outubro governador, dois senadores, deputados federais e estaduais, além de votar para presidente. A disputa nacional lidera a atenção das pesquisas, como mostra o Datafolha divulgado em 11 de setembro, mas é no voto estadual que boa parte dessas cobranças se resolve.

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